Sobre escrever

Abril 28, 2007

Este texto, publicado originalmente em 28.fev.06, faz parte do livro Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone, à venda aqui. O Alex gostou, eu republiquei.

Estava lá nas Livrarias Curitiba (em uma só, é claro!), autografando um livro. A certa altura, a fila diminuiu, e aproveitei para abandonar os amigos e meu posto na mesa, para dar uma espiada na livraria. Andava por trás de alguma gôndola, folheando alguma coisa, quando percebi, ao meu lado, um moleque: alto, loiro despenteado e olhos muito sérios grudados num rosto que, à primeira vista, não pertencia aos olhos. Não tinha nem vinte anos, e olhava ao redor, desconfiado, como se estivesse a ponto de me assaltar. Tento aqui reproduzir o diálogo que se seguiu, usando o sotaque dele:
– Foi tu que escreveu aquele livro vermelho?
– Eu e mais nove. – respondi.
– E o SESC nisso?
– Pagou parte da edição, dividiu com a editora. – expliquei.
Pausa.
– Tu é de São Paulo, não é?
– Sou.
– O SESC de São Paulo é foda, né?
– Põe foda.
– Legal.
E voltou a olhar para os lados. Agora vinha o bote, era de se ver.
– Eu também escrevo. – ele disse.
– Ah, é? – simulei algum interesse para não decepcioná-lo, porque não vejo muita graça nesse assunto.
– É. – confirmou ele.
Outra pausa incômoda.
– E o que tu escreve? – perguntei, aproveitando para usar a gramática local.
– Poesia.
– Ah, é?
– É.
Mais uma pausa. Ou ele dava uma mãozinha, ou a coisa desandava: minha dificuldade com poesia é notória.
– Eu canto numa banda de punk-rock. – confessou, usando todos os erres do sotaque curitibano: “panquerrróque”.
– Letras tuas? – perguntei.
– Só.
– Então, é assim que tu publica?
– Não só.
Mais pausa. Eu estava curioso, mas quase desistindo. Era pausa demais, mesmo para quem tem paciência!
– Tu tem um blog? – investi.
– Não. Não tenho Internet. – disse cabisbaixo, como se alguém no mundo a tivesse. – Eu grudo é nos orelhão.
– Hein? – gaguejei.
– Eu escrevo, xeroco e grudo dentro dos orelhão. – me disse, quase sorrindo.
– Você gruda seus poemas dentro dos telefones públicos, e vai embora? – com o susto, perdi o sotaque e a gramática.
– Ué! Tu queria que eu ficasse lá pra quê?
– Besteira minha… Eu quis perguntar se você deixa algum meio de contato junto com os poemas? Um e-mail?
– Não tenho.
– Telefone?
– Não deixo. – parou um instante, e completou: – Eu nem assino.
Fez-se outra pausa, esta provocada pela minha boca aberta.
– Caralho… – consegui murmurar algum tempo depois.
– É… – respondeu ele.
Fiquei olhando aquele alienígena: na minha frente, estava um escritor, coisa rara, um dos poucos que conheço. Um cara que escreve. E só. Na verdade, ele escreve, xeroca e gruda “nos orelhão”. E acabou-se. Opinião alheia? Pra quê? Reconhecimento? Pfff… Sucesso? Não o faça rir. Editora, distribuidora, dez por cento do preço de capa, resenha nos cadernos literários? Ora, nada disso tem nenhuma importância para ele. Ele escreve e sabe que nunca vai chegar a lugar nenhum com isso. É quase como se tivesse vergonha do que faz. Cá pra nós, todos os que fazem isso também deviam ter. E eu lá na livraria, lançando um livro! Pateta…
Foi só depois que ele sumiu pelo meio das pessoas, que me ocorreu de lhe agradecer. Quis lhe dar um livro, sei lá, pagá-lo de alguma forma. Mas ele já tinha ido.
Depois desse encontro, continuei escrevendo. Mas desde então, nunca mais fiz isso com a mesma intenção, com os mesmos princípios. O curitibano vocalista de uma banda de panquerrróque quebrou alguma coisa em mim. Mas tudo bem, era uma coisa que estava estragada.


Cadê meu Lexotan?

Abril 9, 2007

Este vídeo foi produzido com recursos do Prêmio Estímulo da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. É adaptação de “Grandes são os desertos”, poema de Fernando Pessoa (aka Álvaro de Campos). Uma das poucas coisas sérias que fiz na vida.

Evite o suicídio: não assista.


Vai que alguém não viu…

Março 4, 2007


Advertências, a série

Fevereiro 26, 2007

Apesar de terem saído durante alguns meses, republico num post só a série completa — que, originalmente, se chamava “Contra-propaganda”. Dá menos trabalho.
Para quem não fuma, nunca reparou nisso ou não é daqui, explico: estas são algumas das advertências que aparecem nos maços dos cigarros brasileiros. As frases foram modificadas, mas as imagens são reais, exceto a da cinza, que sofreu uma suave rotação de 180º. Em breve, mais algumas aqui.
Acenda um cigarro enquanto espera.





Recuperando o tempo perdido

Fevereiro 23, 2007

06.mai.04

Da série “As múltiplas utilidades de um blog”.

A Internet é como um condomínio grande: se você está procurando alguém, tem duas opções: ou pergunta ao porteiro (o Google) ou deixa um recado no mural (um site, um blog). Eu vivo procurando amigos antigos, gente que estudou ou trabalhou comigo, antigos clientes, todo mundo. Às vezes encontro um ou outro, às vezes um ou outro me encontra. Como há muitos que não aparecem, vou começar a deixar aqui alguns recados. O de hoje é pro João Carlos, que estudou comigo na sétima e oitava séries. Podem ler.

E aí, João Carlos? Beleza? E então, se lembra daquela vez que você me convidou pra almoçar em sua casa? Lembra quando eu enfiei uma folha de alface inteira na minha boca, e você olhou pra mim com uma cara espantadíssima, e fez uma expressão de desolado desprezo, como se só ali estivesse percebendo o erro de ter convidado uma pessoinha reles e insignificante como eu à sagrada mesa de seu palácio? Lembra?
Sabe, João Carlos, tenho uma coisa pra te dizer desde aquele dia: vai tomar no cu, João Carlos. Se naquele dia eu fosse metade de quem sou hoje, enfiava um pé de alface inteiro no seu rabo, e tampava tudo com um nabo, só pra ver sua carinha desolada de novo, mesmo correndo o risco de que você fosse gostar, João Carlos. E aproveitava também pra enfiar sua mãe no seu rabo, aquela perua de cara rebocada. Só não enfiava seu pai, porque ele devia estar no mesmo lugar em que está hoje: enfiado no rabo da amante dele. Tá bom, então, João Carlos?
A gente se vê.
Abraço.

Ah, como é bom ter um blog.


Receita de Tortija de miollo (pronuncia-se “tortilha de miojo”)

Fevereiro 17, 2007

04.mai.04

Da série “As receitas de Branco Leone que você só cozinhará se não tiver outra coisa para comer em casa”

Abra o armário e pegue um pacote de miojo. Ah, você é daqueles que diz que não tem miojo em casa, que não come essa porcaria, onde já se viu, e tal e coisa? Tá bom! Vai lá no armário, pegue um pacote de miojo e não enche meu saco, tenho mais o que fazer. E não me pergunte de qual sabor, porque você sabe muito bem que é tudo a mesma merda. Vamos com isso.
Abra o pacote, jogue fora o saquinho de tempero e ponha o… ponha aquilo para cozinhar na quantidade de água recomendada na embalagem, ou mais água, tanto faz. Se não quiser jogar fora o saquinho, experimente o seguinte: junte-os em uma caixa de sapatos, à espera de ter uma boa idéia do que fazer com aquilo. Quando os anos se passarem e não couber mais nenhum saquinho na caixa, jogue-os fora todos de uma vez, por absoluta falta de uma boa idéia do que fazer com aquilo. E se quiser cozinhar usando o conteúdo do saquinho, problema seu. Eu não vou ter que comer!
Enquanto o biscoito cozinha e se transforma em… transforma-se naquilo que você bem conhece, quebre três ovos num copo grande (quando digo “quebre três ovos num copo grande”, refiro-me à parte de dentro do copo, e recomendo que os ovos terminem o processo separados das cascas). Eu, pessoalmente, prefiro usar um vidro de maionese vazio que, depois de fechado, serve de coqueteleira, excelente para bater ovos. Em tempo: se seu copo não tiver tampa, não o chacoalhe. Bata o conteúdo com um garfo. Junte sal, um pouco de manjericão seco e/ou pimenta do reino em pó e/ou orégano e/ou manjerona e/ou qualquer coisa que se misture aos ovos. Adicione água (e não leite, se não quiser que tudo grude na frigideira) em quantidade equivalente a meio ovo. Como você vai medir meio ovo de água é problema seu, não posso ensinar tudo. Isto aqui é um blog, não uma aula do Senac. Chacoalhe o vidro bem chacoalhadinho (depois de o fechar, é claro). Corte algumas fatias de tomate e reserve (é tão chique falar “e reserve” quando se dá uma receita, não acha?).
Nesse meio tempo, seu miojo cozinhou. Pegue uma frigideira funda, despeje-lhe algumas colheres de óleo. Não desperdice azeite, que o defunto não merece. Quando o óleo aquecer, despeje o miojo na frigideira e frite os barbantes. Não muito, porque senão os barbantes vão endurecer, e você vai achar que sua omelete está cheia de palitos. Quando o miojo estiver fritinho (interprete isto como bem quiser), dê mais uma boa chacoalhada no vidro (que tomou o cuidado de deixar fechado) e despeje tudo por entre e sobre o miojo. Arrume a confusão com um garfo, abaixe o fogo, tampe a frigideira e aguarde. Quando achar que deve, vire a torta. Ao virar, se não tem prática com a frigideira, evite malabarismos e conseqüentes desastres. Não ia perder grande coisa, mas a sujeira seria fenomenal.
Quando estiver frito dos dois lados, passe para um prato e coma. Não me culpe. Foi você que quis fazer essa porcaria. E jogue fora os tomates que reservou, visto que se esqueceu de colocá-los na frigideira.(*)

Não sei onde estava com a cabeça, mas mandei isto prum concurso de receitas com Miojo promovido pela Ana Maria Braga. Ao invés de um processo, recebi um cartão de agradecimento pela participação. Gente fina é outra coisa…

(*) A última frase deste texto não pertence à redação original, e foi adicionada como resultado da revisão do amigo Faerum.


Tomando umas e outras

Fevereiro 17, 2007

03.mai.04

Na época em que dava manutenção em PCs para defender algum extra, fui chamado para ver se conseguia convencer uma preguiçosa impressora a retornar ao trabalho na casa de uma cliente. Cheguei ao apartamento da distinta senhora (a quem nunca tinha visto antes) e fui prontamente levado ao cômodo onde jazia a máquina inútil. Enquanto ligava o computador e me preparava para exorcizar o periférico, participei do seguinte diálogo:
— Você toma alguma coisa? — perguntou ela.
— Acho que não, obrigado — disse eu, como se espera de alguém desconhecido que veio à sua casa em adiantada hora da noite para fazer um conserto rápido.
— Uma água? — continuou a anfitriã.
— Não, obrigado. — respondi, sorrindo.
— Coca-cola? — insistiu a moça.
— Não mesmo, obrigado. — disse, ainda sorrindo.
— Um suco, talvez? — continuou ela, despertando em mim a dúvida entre aceitar logo alguma coisa para acabar com o papo furado, ou continuar recusando por ter começado a desconfiar que ela queria me envenenar. Optei pela segunda possibilidade.
— Não, obrigado, estou bem assim.
Fez-se um curto silêncio.
— Tomar no cu você não quer, né? — perguntou-me ela, sorrindo.
— Também não, obrigado. — respondi, por falta de melhor resposta à mão.
Por essas e por outras, hoje este santo aqui só faz milagres em casa.


Tipinhos inesquecíveis

Fevereiro 14, 2007

15.mar.04

Conheci um cara que tinha um pneuzinho de kart no banco do carro, pra sentar em cima. Um dia, lhe perguntei pra que servia aquilo. Ele me chamou de enxerido e me mandou à merda. Quando comentei o ocorrido com alguém, me esclareceram: ele tinha hemorróidas. Eram do tipo feroz, daquelas que precisam focinheira. Dias depois, ele roubou minha namorada. Nunca tive oportunidade de lhe agradecer por ter levado embora aquele bagulho. Mas se ele fez isso pra se vingar da minha curiosidade, tomou no rabo. E, pelo que eu fiquei sabendo do rabo dele, deve ter doído…


Aprendendo com as crianças

Fevereiro 14, 2007

15.mar.04

O menino vem lá de fora, onde brincava com os amiguinhos. Vem chorando, aos berros.
— O que foi, Zezinho? Que gritaria é essa? — pergunta a mãe assustada.
— Eu briguei com o Fulaninho e ele mandou eu tomar no cu!
— E vc, Zezinho?
O menino pensa um pouco e responde:
— Eu não fui!
Faça como ele. Se mandarem, não vá.


Receita de Picles de Pepino

Fevereiro 14, 2007

11.mar.04

Picles, assim, do tipo picles, esse eu não sei fazer. O que eu faço é uma conserva de pepino judeu que é ótima. E nem precisa fazer circuncisão no pepino.
Lá vai:
Pega-se uns pepinos japoneses (estranhamente, o pepino japonês é aquele bem comprido), lava-se (só com água, não precisa sabonete, nem massagens demoradas), arruma-se a pepinada dentro de um vidro bem alto, de forma que fiquem em pé, sustentados uns pelos outros, sem tocar o fundo do vidro. É meio ridículo, concordo, mas eles não reclamam.
Amasse uns três dentes d’alho e jogue-os lá pra dentro do vidro. Eles não gritam ao cair porque já morreram por esmagamento.
Solte também duas ou três folhas de louro para dentro do vidro. Elas deveriam cair assim, flanando, descrevendo lindas helicoidais como a sacola de plástico do Beleza Americana, mas não, elas vão esbarrar no primeiro pepino que aparecer. Empurre-as com o dedo lá pra baixo, pra mostrar quem manda nessa merda!
Ferva água suficiente pra encher os vãos (os vãos entre os pepinos, é claro!), com muito sal. Desligue a fervura, deixe passar alguns minutos para que a água muito quente não quebre o vidro, e despeje-a lá para dentro.
Cubra a boca do vidro com um pano (não, ele não vai sufocar), e amarre com um elástico. Muito importante: resista à tentação, e não batuque no pano. Vá comprar um tamborim, que dá mais certo.
Espere uma semana. Coma. Faça ruídos de satisfação.