10.mar.04
Personagens: Ela, o Poeta, os perfumes
Ato único
Quando a luz sobe, ela está dando os últimos retoques na mesa posta. Tira um cisco aqui, alinha um copo ali. Ouve-se o assobio da panela de pressão na cozinha. A campainha toca. Ela se sacode toda, arranca o avental, enfia-o debaixo de uma das almofadas do sofá, ajeita o cabelo. Sai saracoteando em direção à porta e a abre. Aparece o Poeta, pego em flagrante, coçando o saco. Ele tira a mão do saco e a estende para cumprimentá-la.
Ela: – Melhor não. Prefiro um beijo.
(O Poeta faz cara de que não entendeu. Dá um beijo em Wael.)
Ela: – Entra. Tá gostando do cheirinho?
(Entra devagar, olhando os lados, avaliando o ambiente, farejando.)
O Poeta: – É do Boticário?
Ela (por trás do Poeta, ajudando-o a tirar o casaco): – Não, idiota, estou falando do cheiro da feijoada.
O Poeta (tirando o casaco e dando-o a ela): – Ah, sim, tá muito cheirosa.
Ela (pendurando o casaco): – Você gosta de feijoada?
O Poeta: – Nossa, nem me fale! Adoro feijoada! Sou capaz de comer baldes de feijoada. (vai se animando) E torresmo, então? Eu AAAMO torresmo! (se anima ainda mais) Outro dia minha vó fez um tacho de torresmo que parecia uma roda de caminhão! (quase aos berros) E eu comi tudo! TU-DO! (gargalhando histérico) Era tanto sebo… (gargalha) que no dia seguinte eu arrotava (gargalha) e ainda sentia o cheiro do torresmo. (pára, se recompõe, pigarreia, alisa a roupa, fica sério) Você fez torresmo também?
Ela (meio assustada): – É… fiz… mas só um pouquinho… meia dúzia pra cada um…
O Poeta (conformado): – Tudo bem, dá pro gasto. Tá pronto o grude?
(Ela faz que sim com a cabeça. A luz desce e, quando volta, os dois estão sentados à mesa. O Poeta come de boca aberta, gemendo de felicidade e fazendo barulhos de todo tipo.)
O Poeta (limpando a boca na toalha): – Nossa, essa sua feijoada é mesmo do caralho!
Ela (espantada): – Puxa… que bom que voce gostou…
O Poeta: – Adorei. (levanta um lado da bunda e peida alto).
Ela: – O que foi isso?
O Poeta: – Um peido. Feijão me dá gases.
Ela (impressionada): – Assim… rápido?
O Poeta: Não, esse peido é do feijão de ontem. (ri com a boca cheia de feijão, os dentes estão cheios de “urubus”)
(A luz desce e, quando volta, os dois estão deitados no sofá, nus, cobertos por uma manta. O Poeta chupa o cigarro com força e solta a fumaça para o alto, satisfeito.)
O Poeta: – E aí, foi bom pra você?
Ela: – O quê?
O Poeta (indignado): – Como assim, “o quê”?? A transa!
Ela (perdendo a compostura): – Desculpe, querido, mas pra mim, pra haver uma transa, é preciso de um pau duro. E isso aí (aponta a região correspondente, por cima da manta) não esteve exatamente duro.
O Poeta: – Olha, foi o que eu consegui depois de tanta feijoada. (se mexe debaixo da manta, se ajeitando. Pára, preocupado. Levanta a manta e espia.)
Ela (enojada): – Meu Deus, o que foi isso?
O Poeta: – Acho que caguei no seu sofá. Foi maus…
Ela (tirando o avental que estava escondido debaixo da almofada): – Não tem importância, limpa a bunda nisso aqui.
Cai o pano. E a poesia…
Escrito por Branco Leone
Escrito por Branco Leone 